Gilead: (In) fertilidade, capitalismo e trabalho escravo
Em o conto da Aia, embora vise uma ‘purificação’ ideológica, a execução dos homens, do ponto de vista capitlista é um erro na narrativa, algo que o comandante Joseph Lawrence, personagem, economista interno ao regime, deixa passar desapercebido. Num contexto de baixa e gradual queda na taxa de fertilidade, os homens, ao invés de serem executados deveriam ser escravizados para garantir a expropriação dos recursos em favor da burocracia de Gilead. Num momento de queda brusca na fertilidade, a escravização dos homens seria uma das maneiras de manter os pilares de Gilead. Ao exectuar os homens, o conselho dos comandantes ataca as bases econômicas de Gilead e por outro lado, a reprodução material da teocracia acaba recaindo, principalmente nos ombros das mulheres, que também são escravizadas.
Numa economia capitalista
Comparando o caso de Gilead com uma economia capitalista, ou seja, para nossa realidade. Para que os salários se mantenham estáveis e assim garantir a taxa de lucro do capitalista ao longo dos séculos e evidentemente mantenha todo o sistema capitalista funcionando, é necessário que: Ceteris paribus, exista um exército industrial de reserva (EIR), ou seja, mão de obra desempregada. Neste caso, os lucros são pressionados para cima quando há desemprego, pois o EIR enfraquece o poder de barganha dos trabalhadores empregados e pressiona salários para baixo.
Obs: Simplifiquei aqui no texto, mas os lucros não ocorrem apenas mediante desemprego. Eles ocorrem mediante exploração da força de trabalho empregada (mais-valia). O desemprego pressiona salários para baixo, aumentando a taxa de mais-valia, mas não é a única fonte de lucro. Em Marx, a taxa de lucro depende de: Mais-valia (exploração do trabalho empregado), Composição orgânica do capital, velocidade de rotação e salários. Usei o EIR aqui para enfatizar a sua relação com a renovação da força de trabalho dada pelos partos.
O trabalho e este exército industrial de reserva se renovam: a) pela quantidade de partos, b) pelo trabalho não-pago às mulheres, executando trabalhos como aqueles relativos a maternidade envolvendo primeiros cuidados, educação, domésticos etc. Enfim, não é apenas o trabalho o que gera riqueza. Se não existir uma renovação da força de trabalho, o trabalho por si só não consegue gerar riqueza. Embora Marx não leve isso em consideração são os partos e o trabalho doméstico feminino essenciais na renovação desta força de trabalho.
Ora! Considerando uma economia capitalista, dado um contexto onde a taxa de fertilidade cai abruptamente, persiste por décadas, a renovação da força de trabalho tende a estagnar; logo a acumulação de riqueza tende a cair devido a pressão nos salários. Esta renovação ocorre de tal forma que é impossível atualizar o EIR. À medida que o EIR, a mão de obra desocupada vai reduzindo, vai reduzindo o excedente de mão-de-obra. Segundo a lei da oferta e procura, os salários tendem a elevar. Algo similar ocorre na autalidade no Brasil com a situação de pleno emprego dos fatores de produção.
Num contexto de abrupta redução na taxa de fertilidade esta redução na taxa de fertilidade tende a gerar uma elevação nos salários. Se a redução da taxa de fertilidade reduz ainda mais o EIR e logo a rentabilidade do capitalista, o comportamento de assassinar os homens reduz ainda mais a lucratividade do capital, pois reduz-se o exérctio industrial de reserva, a massa de homens desempregados e gradualmente perde-se o fator que forçaria os salários para baixo. Com esta redução, os salários são forjados para o alto. Enfim, num contexto de baixa fertilidade ao executar os homens, atua-se contra as bases da economia capitalista.
Concluindo
Usando os acontecimentos em Gilead para pensar a nossa realidade: Em situações de queda de fertilidade, onde esta queda na fertiliade reduz-se drasticamente em (t+1) o EIR , ou seja, a quantidade de pessoas desocupadas, levando em consideração a entrada de partidos políticos extremistas no poder, existe uma tendência a escravização como forma de manutenção da taxa de lucro do capitalista.
Neste contexto, a dinâmica, a ocorrência de partos sistematicamente ao longo dos anos, a maternidade não é apenas um situação que mantem a máquina capitalista operando a todo vapor, mas também fica evidente que o corpo feminino e o corpo de Gaia é parte essencial na compreensão da dinâmica econômica e capitalista. E toda explicação que não leve em conta estes elementos trata-se de uma explicação parcial. Isso porque com a redução da natalidade, consequentemente afetando os interesses capitalistas, o sistema reage de forma violenta visando manter sua reprodução. Num contexto de baixa fertilidade, quando a automação e a imigração não são suficientes para repor o EIR, e quando partidos extremistas chegam ao poder, existe uma tendência à escravização como forma de manter a taxa de lucro.
Inspirado nas obras de Silvia Federici, EcoDiânica é um conceito criado por mim e se refere a leitura dos efeitos dos sistemas econômicos sobre os corpos femininos.


