Esquizoanálise: o exercício do autocuidado e de uma clínica revolucionária no combate aos microfascismos

joãobattista.eco
By joãobattista.eco novembro 5, 2026 02:54

Esquizoanálise: o exercício do autocuidado e de uma clínica revolucionária no combate aos microfascismos

E por fim, dentre os remédios para o fascismo e os microfascismos, cito uma medida que não é mágica, mas filosófica. É a mais importante porque é mais interessante que a magia se oriente pela filosofia do que pela ciência ou senso comum. Trata-se da prática da Esquizoanálise, que se dá por meio da prática do corpo sem órgãos (CsO). Por microfascismos entendo toda prática antiética (que possua potencial de prejudicar a nós e ao outro) que ocorre no campo da intimidade, de nossas relações, de maneira subterrânea. Portanto, é destinado principalmente aos bolsonaristas de esquerda que acham que estão isentos, mas que nos pequenos espaços apresentam um comportamento de pequeno autoritário.

Surgida após maio de 68, um levante similar ao que presenciamos nos dias atuais em várias partes do mundo, foi inaugurada pelos filósofos Deleuze e Guattari por meio do lançamento do livro O Anti-Édipo e, depois, na década de 1980, pelo lançamento da obra Mil Platôs. Trata-se de uma clínica, mas não igual, portanto diferente da psicanálise. Ao passo que na psicanálise os microfascismos têm suas arestas aplainadas e são acomodados a uma realidade, a uma subjetividade capitalística, na Esquizoanálise o indivíduo torna-se diferente dele mesmo, daquilo que se é: ou seja, torna-se um bolsonarista diferente ou torna-se algo diferente do bolsonarismo. Há a prática de um processo de fuga de uma terra para uma nova terra, de uma realidade para uma realidade mais interessante e potente. Se na psicanálise os bolsonarismos são toleráveis quando não estão prejudicando terceiros, na Esquizoanálise eles são totalmente desorganizados. Isso porque a Esquizoanálise destrói a identidade e te coloca em contato direto com seu desejo intensivo, com suas razões.

Como isso é feito?
a) Por meio da destruição de capturas efetivadas pelo maquinário social;

b) Por meio da descoberta das forças intensivas do desejo que é a ideia de conatus, propósito, vontade de viver, vontade verdadeira etc.; e

c) Por meio da inserção deste novo corpo no diagrama de forças, desarranjando-o, estrangulando-o ou revolucionando-o.

Quando isso é feito, quando se age a partir das intensidades, a partir das nossas razões, uma parte desta ação retorna sobre o indivíduo trazendo bem-estar, felicidade e preenchimento.

Então, a clínica, a busca pelo bem-estar e o autocuidado são algo também revolucionário, porque o indivíduo revoluciona a si mesmo, torna-se diferente daquilo que se é. A Esquizoanálise é a chave para a inovação, para se revolucionar e manter um pensamento sempre vivo e jovial. No entanto, cabe um alerta: é impossível aplicá-la nos outros se você mesmo não a aplicou em você.

Lamentavelmente, no Brasil e no mundo, apesar de quase sessenta anos de existência, a Esquizoanálise é uma prática marginal. Não é uma prática comum nos cursos de psicologia, contando com apenas alguns programas em algumas universidades federais ou alguns trabalhos de pesquisa. Um de seus principais representantes no Brasil é Domênico Uhr, da Universidade Federal de Goiás (UFG). Além de livros, Domênico tem vários vídeos e lives publicados em seu canal. Temos ainda o site Razão Inadequada, Luiz Fuganti (o mais difícil de entender), além de outros. Para entender e praticar a Esquizoanálise você precisa estudar: a Filosofia da Diferença, Spinoza, Nietzsche, Bergson e Deleuze e Guattari.

A Esquizoanálise é a prática clínica que leva à liberdade de pensamento, à descaptura do desejo e, portanto, a única prática capaz de ir contra os microfascismos. Isso porque o fascismo não ocorre apenas numa estrutura de poder, no nível molar ou macro. Ele ocorre antes de tudo na esfera micro, molecular, na micropolítica, em nossa intimidade, em nossas conversas e no cotidiano de nossos lares como algo que é desejado por cada um antes de tomar uma forma estatal. Portanto, não basta destruir o fascismo por meio do debate, das eleições etc. Isso é importante, mas é necessário destruí-lo no ser humano para que não haja ressonância, para que no futuro nenhum maluco venha a acolher e tentar realizar os desejos nefastos da população. É necessário vencê-lo em suas bases, em suas raízes, lá onde ele ocorre de maneira subterrânea e covarde. Ao se tornar diferente daquilo que se é, você não encontra apenas o bem-estar emocional etc., que é o objetivo de toda clínica ou seja, a saúde, mas torna-se algo diferente do bolsonarismo.

Lamentavelmente, criticam a Esquizoanálise por ser ainda muito elitista, dizem os adeptos do marxismo e do neomarxismo. No entanto, o seu desenvolvimento é factível já que a prática pode se iniciar a partir do cotidiano, dos acontecimentos do dia a dia. Assim, a libertação do fascismo requer uma prática e uma clínica esquizo voltada para o povo, com o povo e feita pelo povo. Não obstante poder ser adaptada e integrada em práticas marxistas. No mais, é bastante relevante, pois ela pode ser praticada não apenas por psicólogos, mas por outros profissionais de saúde, por pessoas comuns e por outros profissionais em suas funções. Por exemplo, noto que seria bastante interessante a prática da esquizoanálise dentro das ciências econômicas e nas universidades no desenvolvimento de projetos de pesquisa. Isso evitaria que muitas pessoas se enveredasse por caminhos que não são seus.

Como praticar?
a) Listando os acontecimentos em sua vida. Listando tudo aquilo que você faz todos os dias;

b) Partindo do pressuposto de que em tudo o que você faz existe um desejo naquele acontecimento;

c) Depois, questionar o que quer este desejo. Enfim, você precisa encontrar o desejo e questioná-lo. Da mesma forma, questionar quem está desejando isso em você. Você irá descobrir que muitos dos seus desejos não são seus, mas de maquinários sociais que o capturaram para realizar seus intentos;

d) Ao encontrar o que quer este desejo, transformá-lo em uma nova meta em sua vida e afirmar, encontrar meios para realizar este desejo, para realizar esta meta;

e) As maneiras evidenciadas de se realizar esta meta são as linhas de fuga para fora daquela realidade, no caso, para fora do bolsonarismo.

Enfim, pratica-se a Esquizoanálise tentando encontrar as razões de vida, as razões para sua vida, as razões pelas quais você faz o que faz todos os dias. Estas razões estão inconscientes, escondidas no próprio acontecimento. Pratica-se a Esquizoanálise encontrando meios para realizar suas razões; quando você foca nas razões, você não apenas vive uma vida mais interessante, mas se liberta daquilo que oprime sua mente, que tenta te controlar. Você se liberta dos microbolsonarismos e dos fascismos.

Enfim, os bolsonarismos te impedem de praticar a Esquizoanálise, de você descobrir suas razões, logo te impedem de ter uma vida mais interessante. No entanto, você só consegue viver uma vida mais interessante se praticar a Esquizoanálise, que tem como efeito a libertação dos microbolsonarismos. O mapeamento destas razões por trás das coisas que você faz todos os dias chama-se cartograma, que é a principal ferramenta de análise dos praticantes. Ao final, o que se obtém é um conjunto de linhas e a percepção de onde sua energia está vazando de maneira indevida ou onde está investindo tempo.

Na Esquizoanálise não temos esta divisão tradicional como corpo, mente e espírito etc., mas o indivíduo é composto por linhas, por razões e linhas que se conectam entre si e que se conectam com as linhas dos outros, do ambiente e de seres não-humanos. Isso é profundamente enriquecedor, pois é o mundo e tudo o mais que passam a fazer parte da subjetividade humana. Neste caso, o que se alinha e ajuda a realizar estas razões chama-se aliados.

Esta visão é inclusive importante para ler o livro Mil Platôs. Sem esta visão, lerá o livro como um livro qualquer, como um meio para obter informação. Talvez nas primeiras vezes venhamos a ler o livro Mil Platôs como se lê um livro comum, a fim de obter informações, a fim de saber como funciona algo. No entanto, quando descobrir estas linhas, suas razões, irá enxergá-lo como um aliado e, a partir disso, assim serão todas as suas demais leituras, os livros e suas leituras passarão a funcionar com você. Esta é a filosofia pela qual me enxergo, pela qual entendo e tento me orientar. É ela que me protege de uma visão acanhada de mundo e me protege dos bolsonarismos.

Eu sei, é difícil ler, principalmente numa era em que nos nutrimos massivamente de vídeos curtos. E principalmente entender o que se leu. Mas se você se identifica como um bolsonarista ou qualquer situação que constitua sua identidade, este é seu melhor caminho para mudar de vida, para escapar dos efeitos da Torre e do risco de se tornar um pobre diabo (poor devil) ou seja, um bolsonarista que, reincidentemente, ataca mulheres.

Enfim, esquizoanálise é um conceito teórico e prático criada pelo filósofo Gilles Deleuze e pelo psicanalista Félix Guattari na obra O Anti-Édipo (1972). Apresenta uma crítica à psicanálise, uma nova perspectiva da história. Para a esquizoanálise o desejo é produtivo e criativo ao passo que na psicanálise é visto como falta. Mas ao desejo nada falta. O inconsciente também é visto de outra forma. Ao passo que comumente vemos o inconsciente como algo que está constantemente tentando nos pregar uma peça, nas esquizoanálise, o inconsciente participa da construção de nossa vida, produzindo a todo tempo realidades e conexões. Rejeita identidades fixas e rótulos fixos, valorizando o vir a ser.

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